Abriu a porta. E entrou. Uma onda suave chegou-lhe aos pés, e ele
sorriu. Nas paredes, cem, quinhentos, mil búzios pendurados, outros
tantos poisados aqui e ali, pelos poucos móveis que roçavam as paredes,
Tudo imaculadamente lavado, envolto naquele cheiro a maresia que chegava
por todos os lados. Sete ondas suaves, sete maiores que chegaram à
soleira da porta e recuaram pelo quarto, cozinha, sala…E o som, aquele
som do mar, que sempre o inebriara.
Lembrou-se. Fora o seu avô que
lhe oferecera o primeiro búzio, e lhe dissera para o encostar ao
ouvido. E nesse momento, o mar entrara-lhe para sempre na cabeça,
ocupara-o todo, tomando conta de todos os espaços do seu corpo. Nessa
altura, passara um pano pelo ouvido, pano no qual ficaram inúmeros
cristais de sal que ele guardou como diamantes. Depois foram sessenta
anos de procura e recolha. Tinha-os de todos os tamanhos e feitios. Aos
poucos esvaziou a casa para a encher de conchas.
Um dia, veio o
aroma de algas verdes. No outro surgiram pequenos peixes. Depois
chegaram as ondas, saíam das conchas e voltavam a elas, suavemente.
Sempre à mesma hora que saíam, e cada vez mais, tardavam a entrar.
Dantes ele dormia dentro de um búzio, na posição fetal, como uma concha,
mas agora que envelhecera, percebeu que eram os búzios que se deitavam
dentro de si, sem pedir licença, como se no sonho a mistura de realidade
se calcificasse.
Olhou-se no reflexo do que fora, agora as suas
pernas eram corais, as mãos feitas de areia fina e o coração um barco
afundado, cheio de restos de viagens e viajantes.
Naquela noite,
sabia, seria oceano. Faltava-lhe apenas que a sua cabeça se despedisse
das memórias, e se transformasse em estrela. A custo estendeu-se no chão
salgado da casa e deixou que lhe crescessem as cinco pontas na cabeça. E
foi assim que morreu do que lhe restava de humano.
