sábado, 13 de fevereiro de 2016

tarde



Dois anos depois ele descobriu que ela existia, como existem as flores que dançam, as árvores que ensombram, as nascentes que são rios, os caminhos que são estradas, os olhares que cristalizam, as sombras que amadurecem.
Dois anos depois ele descobriu que ela existia como as palavras que se calam, como um eco estendido no deserto, como um cavalo na orla da espuma, como um sorriso dançando no toque dos corpos. Descobriu que não existem silêncios que cheguem para calar a saudade e que era possível perder-se sem jamais se encontrar. Dois anos depois ele descobriu que era possível vaguearem ambos pelo universo como um único sonho que não tinha fim e que, inconscientes, podiam adormecer juntos em nome da noite, quando se lia já no horizonte a ambiguidade da manhã. E que no limite de tudo, podiam até morrer devagar, afogados um no outro.
Dois anos depois ele descobriu que nem sequer tinham um nome. Nem ele. Nem ela.
Mas nessa altura, já ela se tinha fundido com um ponto qualquer do universo, tal como tinha prometido. Um ponto que ele já não conseguia ver.
Dois anos depois ele descobriu que “o nunca é tarde” era uma mentira.
Abriu a porta. E entrou. Apercebeu-se que havia um vazio incolor, liberto de tudo. E no entanto, cada coisa estava no seu lugar, da mesma forma imaculada de sempre. Os móveis roçando as paredes, cortinas imensas trepando pelas janelas, o cão de louça no canto da sala, as flores vermelhas fugindo da jarra. Como todos os dias dos últimos trinta anos, a mulher, na cadeira de baloiço, fazia renda e da renda desprendia-se o sorriso de boas vindas, gasto, velho, fortuito. Aparentemente, nada se manifestava para além do habitual. Percebera há muito que ali já não existiam palavras, apenas ecos e silêncios que chegavam para esvaziar o dia. Percebera que já não era possível adormecerem juntos em nome da noite e que, no limite de tudo, apenas lhes restaria morrer devagar. E que já nenhum tinha nome. Nem ele. Nem ela. Mas hoje era diferente. Sabia que outra coisa se perdera. Abriu a porta. E entrou em si. E viu que já não tinha alma. E que essa alma se perdera naquela casa ou naquele corpo, algures, num tempo sempre igual e indefinido. Então,cansado de abrir portas, saiu pela janela e partiu. Tal e qual partem os pássaros.