sábado, 13 de fevereiro de 2016
Abriu a porta. E entrou.
Apercebeu-se que havia um vazio incolor, liberto de tudo. E no entanto, cada coisa estava no seu lugar, da mesma forma imaculada de sempre. Os móveis roçando as paredes, cortinas imensas trepando pelas janelas, o cão de louça no canto da sala, as flores vermelhas fugindo da jarra. Como todos os dias dos últimos trinta anos, a mulher, na cadeira de baloiço, fazia renda e da renda desprendia-se o sorriso de boas vindas, gasto, velho, fortuito. Aparentemente, nada se manifestava para além do habitual.
Percebera há muito que ali já não existiam palavras, apenas ecos e silêncios que chegavam para esvaziar o dia. Percebera que já não era possível adormecerem juntos em nome da noite e que, no limite de tudo, apenas lhes restaria morrer devagar. E que já nenhum tinha nome. Nem ele. Nem ela.
Mas hoje era diferente. Sabia que outra coisa se perdera.
Abriu a porta. E entrou em si.
E viu que já não tinha alma. E que essa alma se perdera naquela casa ou naquele corpo, algures, num tempo sempre igual e indefinido.
Então,cansado de abrir portas, saiu pela janela e partiu. Tal e qual partem os pássaros.
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