Ao longe um latido e a cidade embalada por um rio.Ao longe um carro, capot aberto,e a lua subindo no céu como uma escada de estrelas.
Debruço-me sobre ontem.Fazíamos fogueiras quando o sol ainda era redondo. Fazíamos fogueiras debruadas de palavras e vinho e nadávamos nus em rios por inventar.
Estávamos no horizonte de tudo, intensamente, quase no limite do deslumbramento, por onde entrávamos com a magia de uma infância que ainda nos pesava.Penso que ainda éramos crianças e por isso a magia.Vivíamos do espanto, das estrelas, dos montes e por nunca nos desbravarmos chegávamos até a conhecer-nos.
Tinhamos olhos de montanha, lábios de areia, cabelos de rochas, as mãos de árvores. Tudo em nós era céu e terra e mar ou rio. Tudo em nós era sensação, sentir, sentido. Tocávamos e éramos tocados. E nunca pedíamos mais nada uns aos outros do que o direito ao silêncio e o dever de escutar.
Era o tempo das amizades mais puras onde nos libertávamos dos nomes, o tempo de Gismonti, de Laurie Anderson, do uivo, do riso,da Pedra Bela, dos sacos cama cobertos de terra.Era o tempo de acreditarmos que podiam chover estrelas e que nunca, mas nunca, seria possível envelhecer.
E no entanto, envelhecemos. Eu, tu, o vinho e as estrelas.
sexta-feira, 14 de novembro de 2014
chegar aí
Preciso de chegar aí, onde deambulas entre muros brancos, incendiar as mãos em qualquer chama dos teus sentidos, morder o teu sonho, repousar sobre o teu peito de agora para ouvir o futuro.
Preciso de chegar aí, onde amadureces entre os meus lábios, onde não chegamos a adormecer e sentimos as mãos tardarem em chegar.
Preciso de chegar aí, para tingir-te a lembrança deste tempo onde bebemos o que há de abstrato no dia, onde sorvemos, um do outro, o calor, o calor e o calor.
Preciso de chegar.
Preciso de chegar aí, onde amadureces entre os meus lábios, onde não chegamos a adormecer e sentimos as mãos tardarem em chegar.
Preciso de chegar aí, para tingir-te a lembrança deste tempo onde bebemos o que há de abstrato no dia, onde sorvemos, um do outro, o calor, o calor e o calor.
Preciso de chegar.
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
noturno nº 8
Brincávamos com as mãos no tempo em que os castanheiros escondiam gnomos. À noite, nenhuma parte do corpo ficava por descobrir. Era como se nos entendêssemos pelos dedos.
Ninguém nunca me tinha dito que de noite os corpos eram tão quentes.
Deixávamos por momentos de ser um
Na confusão de dois
Perdíamos a nossa própria alma.
Estávamos completamente nus, de roupa e de memórias.
Nus e praticáveis.
Encontrámos por isso o infinito noturno.Perdíamo-nos e nunca nos achávamos. Tinhamos um especial deleite nisso, em andar a vaguear pelo universo, etéros e voláteis, como um único sonho que não tinha fim.
Estávamos completamente imbuídos um do outro e fazíamos de conta que morríamos.
Havia no entanto uma exceção, quem sabe um sinal.
A flor murchava na jarra e o seu perfume morria-nos pela boca.
Inconscientes adormecíamos em nome da noite enquanto o dia era um porvir suspenso do sol.
Lia-se no horizonte o nome da manhã. A manhã chamava-se pelo teu nome.
A inspiração da aurora era um delito noturno. A aurora chamava-se pelo meu nome.
Morríamos pelo sol. E nem sequer tínhamos nomes. Nem eu. Nem tu.
Entre os nossos corpos juntos na morte cresciam musgo e flores.
Mas acordaste mais cedo, apesar de ser num destempo que não tinha presente.
Enquanto eu, no torpor inconsciente da noite, nunca mais desanoiteci.
Ninguém nunca me tinha dito que de noite os corpos eram tão quentes.
Deixávamos por momentos de ser um
Na confusão de dois
Perdíamos a nossa própria alma.
Estávamos completamente nus, de roupa e de memórias.
Nus e praticáveis.
Encontrámos por isso o infinito noturno.Perdíamo-nos e nunca nos achávamos. Tinhamos um especial deleite nisso, em andar a vaguear pelo universo, etéros e voláteis, como um único sonho que não tinha fim.
Estávamos completamente imbuídos um do outro e fazíamos de conta que morríamos.
Havia no entanto uma exceção, quem sabe um sinal.
A flor murchava na jarra e o seu perfume morria-nos pela boca.
Inconscientes adormecíamos em nome da noite enquanto o dia era um porvir suspenso do sol.
Lia-se no horizonte o nome da manhã. A manhã chamava-se pelo teu nome.
A inspiração da aurora era um delito noturno. A aurora chamava-se pelo meu nome.
Morríamos pelo sol. E nem sequer tínhamos nomes. Nem eu. Nem tu.
Entre os nossos corpos juntos na morte cresciam musgo e flores.
Mas acordaste mais cedo, apesar de ser num destempo que não tinha presente.
Enquanto eu, no torpor inconsciente da noite, nunca mais desanoiteci.
noturno nº 3
Pela calada da noite há soluços de estrelas e risos dos raios de luar.O motor cinzento dos carros espalha-se na rua infiltrando-se pelas janelas e pairando sobre a minha cama com seus gases de escape.Escapo também, e protejo-me desta noite emersa em outra noite negra, feita de medos e ausência.
Sonambulo.
Vou engolindo a música dos carros como um astro golpeando-me a garganta.
Embarro contra as janelas.
Ébrias de cortinas.
E há como que uma terceira noite pendendo do varão sobre o vidro.
O círculo de luz no teto
É o etéreo caminho onde me penduro à espera do sono,
Que não do sonho.
A noite abandonou a rua, o quarto, as cortinas, os olhos. E ficou apenas o seu cheiro anunciando velhas, cada vez mais velhas, madrugadas.
Sonambulo.
Vou engolindo a música dos carros como um astro golpeando-me a garganta.
Embarro contra as janelas.
Ébrias de cortinas.
E há como que uma terceira noite pendendo do varão sobre o vidro.
O círculo de luz no teto
É o etéreo caminho onde me penduro à espera do sono,
Que não do sonho.
A noite abandonou a rua, o quarto, as cortinas, os olhos. E ficou apenas o seu cheiro anunciando velhas, cada vez mais velhas, madrugadas.
ruas
Leitos de pedras desenhados
à mão
onde os passos fluem com margens variadas.
Podes seguir sozinho
podes nem seguir!
Ficar apena parado
a roer as horas em qualquer esquina.
à mão
onde os passos fluem com margens variadas.
Podes seguir sozinho
podes nem seguir!
Ficar apena parado
a roer as horas em qualquer esquina.
fragilidade
Como é lábil esta sensação
de sermos um
quando o próprio dia
traz em si, escondida,
uma luminescência feita
de fios noturnos.
de sermos um
quando o próprio dia
traz em si, escondida,
uma luminescência feita
de fios noturnos.
sábado, 1 de novembro de 2014
por de sol
O último sítio onde a luz se perde é sempre o horizonte.
Deve ser por existir essa poética de fim do dia que ainda somos capazes de sonhar.
Deve ser por existir essa poética de fim do dia que ainda somos capazes de sonhar.
Assim
Surges como a diagonal à palavra prometida.
A rua que me apresentas tem o cheiro das vielas, emprestado.
Demorei cinco minutos a caminhar à tua frente.
Bastou para eu saber o que nos tinha acontecido.
A rua que me apresentas tem o cheiro das vielas, emprestado.
Demorei cinco minutos a caminhar à tua frente.
Bastou para eu saber o que nos tinha acontecido.
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