Ao longe um latido e a cidade embalada por um rio.Ao longe um carro, capot aberto,e a lua subindo no céu como uma escada de estrelas.
Debruço-me sobre ontem.Fazíamos fogueiras quando o sol ainda era redondo. Fazíamos fogueiras debruadas de palavras e vinho e nadávamos nus em rios por inventar.
Estávamos no horizonte de tudo, intensamente, quase no limite do deslumbramento, por onde entrávamos com a magia de uma infância que ainda nos pesava.Penso que ainda éramos crianças e por isso a magia.Vivíamos do espanto, das estrelas, dos montes e por nunca nos desbravarmos chegávamos até a conhecer-nos.
Tinhamos olhos de montanha, lábios de areia, cabelos de rochas, as mãos de árvores. Tudo em nós era céu e terra e mar ou rio. Tudo em nós era sensação, sentir, sentido. Tocávamos e éramos tocados. E nunca pedíamos mais nada uns aos outros do que o direito ao silêncio e o dever de escutar.
Era o tempo das amizades mais puras onde nos libertávamos dos nomes, o tempo de Gismonti, de Laurie Anderson, do uivo, do riso,da Pedra Bela, dos sacos cama cobertos de terra.Era o tempo de acreditarmos que podiam chover estrelas e que nunca, mas nunca, seria possível envelhecer.
E no entanto, envelhecemos. Eu, tu, o vinho e as estrelas.
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