sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Búzios

Abriu a porta. E entrou. Uma onda suave chegou-lhe aos pés, e ele sorriu. Nas paredes, cem, quinhentos, mil búzios pendurados, outros tantos poisados aqui e ali, pelos poucos móveis que roçavam as paredes, Tudo imaculadamente lavado, envolto naquele cheiro a maresia que chegava por todos os lados. Sete ondas suaves, sete maiores que chegaram à soleira da porta e recuaram pelo quarto, cozinha, sala…E o som, aquele som do mar, que sempre o inebriara.
Lembrou-se. Fora o seu avô que lhe oferecera o primeiro búzio, e lhe dissera para o encostar ao ouvido. E nesse momento, o mar entrara-lhe para sempre na cabeça, ocupara-o todo, tomando conta de todos os espaços do seu corpo. Nessa altura, passara um pano pelo ouvido, pano no qual ficaram inúmeros cristais de sal que ele guardou como diamantes. Depois foram sessenta anos de procura e recolha. Tinha-os de todos os tamanhos e feitios. Aos poucos esvaziou a casa para a encher de conchas.
Um dia, veio o aroma de algas verdes. No outro surgiram pequenos peixes. Depois chegaram as ondas, saíam das conchas e voltavam a elas, suavemente. Sempre à mesma hora que saíam, e cada vez mais, tardavam a entrar.
Dantes ele dormia dentro de um búzio, na posição fetal, como uma concha, mas agora que envelhecera, percebeu que eram os búzios que se deitavam dentro de si, sem pedir licença, como se no sonho a mistura de realidade se calcificasse.
Olhou-se no reflexo do que fora, agora as suas pernas eram corais, as mãos feitas de areia fina e o coração um barco afundado, cheio de restos de viagens e viajantes.
Naquela noite, sabia, seria oceano. Faltava-lhe apenas que a sua cabeça se despedisse das memórias, e se transformasse em estrela. A custo estendeu-se no chão salgado da casa e deixou que lhe crescessem as cinco pontas na cabeça. E foi assim que morreu do que lhe restava de humano.




sábado, 13 de fevereiro de 2016

tarde



Dois anos depois ele descobriu que ela existia, como existem as flores que dançam, as árvores que ensombram, as nascentes que são rios, os caminhos que são estradas, os olhares que cristalizam, as sombras que amadurecem.
Dois anos depois ele descobriu que ela existia como as palavras que se calam, como um eco estendido no deserto, como um cavalo na orla da espuma, como um sorriso dançando no toque dos corpos. Descobriu que não existem silêncios que cheguem para calar a saudade e que era possível perder-se sem jamais se encontrar. Dois anos depois ele descobriu que era possível vaguearem ambos pelo universo como um único sonho que não tinha fim e que, inconscientes, podiam adormecer juntos em nome da noite, quando se lia já no horizonte a ambiguidade da manhã. E que no limite de tudo, podiam até morrer devagar, afogados um no outro.
Dois anos depois ele descobriu que nem sequer tinham um nome. Nem ele. Nem ela.
Mas nessa altura, já ela se tinha fundido com um ponto qualquer do universo, tal como tinha prometido. Um ponto que ele já não conseguia ver.
Dois anos depois ele descobriu que “o nunca é tarde” era uma mentira.
Abriu a porta. E entrou. Apercebeu-se que havia um vazio incolor, liberto de tudo. E no entanto, cada coisa estava no seu lugar, da mesma forma imaculada de sempre. Os móveis roçando as paredes, cortinas imensas trepando pelas janelas, o cão de louça no canto da sala, as flores vermelhas fugindo da jarra. Como todos os dias dos últimos trinta anos, a mulher, na cadeira de baloiço, fazia renda e da renda desprendia-se o sorriso de boas vindas, gasto, velho, fortuito. Aparentemente, nada se manifestava para além do habitual. Percebera há muito que ali já não existiam palavras, apenas ecos e silêncios que chegavam para esvaziar o dia. Percebera que já não era possível adormecerem juntos em nome da noite e que, no limite de tudo, apenas lhes restaria morrer devagar. E que já nenhum tinha nome. Nem ele. Nem ela. Mas hoje era diferente. Sabia que outra coisa se perdera. Abriu a porta. E entrou em si. E viu que já não tinha alma. E que essa alma se perdera naquela casa ou naquele corpo, algures, num tempo sempre igual e indefinido. Então,cansado de abrir portas, saiu pela janela e partiu. Tal e qual partem os pássaros.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

areia e sal

Calam-se os batentes das portas.Sopram-se as chamas dos dias. Acende-se a penumbra nos dedos.
Areia e sal.
Vou ficando aqui, com o vento a servir-me um sorriso, e as nuvens a rir da passagem breve das gaivotas, Gosto de ficar assim, escutando os olhos do tempo, sobrevivente e única.
A noite nunca está aqui à minha espera Nem tu. Uma e outro servem-se de um princípio para,como um meio, me reservarem um fim.Na aresta de cristal já crescia,porém, em mim a opacidade nocturna. Um atraso   serve-se frio e pode ser um nunca mais.
Por isso mantive-me ali até ser rocha e receber nas costas palavras salgadas do mar.
E sentir nas minhas mãos de pedra as tuas mãos de fogo, onde, ainda intacto, o verão morria.
Querer voltar em ti todas as noites, como a gaivota que se  esqueceu das asas.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Ruralidades



Subindo o monte mais alto
Rasgando o céu mais comprido
Galgando o rio mais largo
Os pés na terra húmida
As mãos no  húmus seco e negro
Os lábios no feno decepado
E o corpo uma videira.
Assim existo
E ao longe o eco de um latido
            E o cheiro doce -  fétido do gado

Raízes



E quando voltar dos campos em flor
ouvirei o cantar das margaridas no teu peito.
Podemos voltar a plantar as mãos.
Saberei então que é primavera
será março e, pensamos nós,
chegarás renovado à minha nova morada.
Ali começaremos então com o futuro
e as palavras poderão libertar-se
até aos sexos.

Deitar-me a teu lado



Hoje queria que fosse olhar a tua mão
Todas as palavras fossem lábios
E todos os toques encantamento.
Hoje queria deitar-me a teu lado
E sentir as marés.