quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Quando
Quando, na ausência do dia, as janelas se fecharem
E o tempo morrer como quem esconde o siêncio da noite
Quando as flores se cruzarem nas pedras duras do caminho
E o suor não for mais do que um rio nas nascentes dos corpos
Quando a cidade se afogar no mar como um sol rosa pálido
E os anjos desistirem do céu e se encostarem nos lençois revoltos
Então será a nossa vez de criar o mundo à medida do nosso olhar.
Latitude 9ºW
E olho o teu perfil transparente e límpido, na busca do que há de irreal nesta espera. Procuro na sombra dos teus cabelos que não estão, a entrada para os labirintos que desconheço. Queria entrar em ti como quem entra na corrente de água de um rio, seguir pelo teu leito e aprender de cor todas as tuas pedras até encontrar a latitude do nosso prazer. Queria ter-te nas mãos, assim, como quem contém um búzio ou uma árvore, afagar-te como se fosse o vento a alisar-te a pele. Queria entrar na tua pele, desvendar as tuas cavernas mais negras e escuras, ver a luz, sonhar com o sol, embebedar-me de peixes e aves e beber-te .Beber-te para saciar esta sede de sal e mar.
Profundidade 102
O silencio entra na minha porta
Com um fulgor raro de sol.
Entre os poros acendem-se os instantes
Das tuas mãos crescentes no meu peito.
Éramos jovens, porém não o sabíamos.
Acreditávamos que o futuro tinha asas.
E na espera tangente do possível
Um grito de urgência quebrou –nos os pulsos.
Imóveis, hoje somos ambos pássaros
Para quem qualquer céu é sempre alto demais
E qualquer profundidade demasiado curta.
sábado, 4 de outubro de 2014
Sonambular
Amanhã é dia de voltar a procurar borboletas nas esquinas
sonâmbulas da cidade. E esperar que haja um poente para abrir a porta à noite.
Cálice
Vamos de riso em riso, de vento em
vento, beber a noite no cálice da lua. Debruçamo-nos à varanda dos olhos, com o
gosto de um sorriso nos lábios, E mais uma vez quase nos perdemos nas palavras
rudes da nossa ambiguidade.
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