quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Memórias

O tempo, aqui, para. Como param os relógios, ou os comboios nas gares que já pisamos juntos. Se fixar um pinheiro, daqueles que nem se agitam por baixo da varanda que dá para um rio que já não se vê, posso ver crescer o tronco, na lentidão dos segundos que nos escaparam das mãos. Percebi agora, que quando o tempo para, a memória corre. Como se houvesse uma relação contrária. A memória anda a destempo. Tanto mais rápida quanto mais lentos são os minutos. Talvez por isso me soem nos ouvidos todos os nomes. Todos os nomes que já me sussurraram ao ouvido ( principesca…lembras-te? Talvez o mais bonito. Numa época em que as estações se confundiam e não paravam de nos crescer árvores no peito.). A vela acesa na entrada da casa…As noites sob o luar, quando a fogueira era aquela chama que acompanhava o nosso sono pelos aléns dos montes…Mais atrás, a minha primeira ida ao dentista. Mais à frente, aquela árvore que testemunhou as juras que fizemos. Como se o facto de se dizer juro tivesse de facto alguma importância para além do momento. Pedro Barroso e o silêncio. Caetano e a ausência. Caminho de velas, bilhetes que se trocam, e as palavras tão perecíveis como o papel onde se estacionam, impúdicas, nuas. O tempo parou. Apesar disso envelhecemos todos, eu e as palavras .Não, nunca somos únicos e especiais . Há sempre um pormenor mais importante, mais especial. Nem que seja um jantar, um outro alguém, uma bebida. Um quase nada . Um quase tudo.

Às vezes é melhor desligarmos os telemóveis. Assim, podemos ficar sempre a pensar que a culpa é do telefone desligado.

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