quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Fim de verão


Entre as margens que se avistam sem se tocarem
Um incêndio de luz transporta o rio
Para o centro e coisa nenhuma.
Sobe, da margem, uma súplica quieta da água
A pedir um pouco de sede a qualquer boca


Nos montes parece que nos nascem braços
Como se quiséssemos abraçar os cumes num só fôlego
E repousar no verde que veste a encosta
Como se fosse uma túnica tecida  para cobrir a nudez.
Toda a nudez que a terra transporta
E nos faz ter desejos de passar para além
De tudo o que é horizonte e longe.


Sigo pelo caminho medindo os passos
Aqueles que me faltam para atingir o orgasmo das águas.

Como se o mar, ao longe, fosse o palco para mil atores
E eu o pano que destapa a cena
E sobe devagar, ávido de som e cor
E nascem os aplausos de todas as flores
Que se debruçam só para me ver passar.

No silêncio de tudo um grito de ave morta
O meu silêncio de como quem parte e regressa
Numa eterna viagem pelo centro do cosmos
que adormece em mim com um perfume de fim de verão…


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