sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Porto quase inverno

É quase Inverno. Também no Porto.
Sigo pela marginal, manhãzinha, os olhos dançando sobre as formas e as cores. O silêncio descansa na calçada, quando a cidade se prepara para chegar a tempo aos primeiros acordes da manhã. Uma luz húmida, ensonada ainda, talvez um fumo, desprende-se do rio lentamente e pouco a pouco desenha os contornos do casario escuro.
Furtivos gatos, quase sem dono, roçam-se nas bermas. Está frio. Enrolo-me no cachecol, nas luvas, no gorro, para assistir ao espectáculo contínuo do dia a crescer dentro de uma cidade de inverno.
O tom é cinzento, e as roupas da véspera que secam nos beirais, escorrem agora  suores nocturnos. Têm um ar abandonado, como o daquele mendigo que se descolou da parede branca da casa para vir  ao meu encontro de palma aberta.

E a manhã instala-se assim, inteira, nua, rua a rua, vulto a vulto. A manhã acorda as crianças da escola, pescadores, comerciantes, arrumadores, gente que trabalha, outra que se espreguiça, como se, o que restasse de noite, ficasse adiado para outra vez. Há pressa nos passos, mãos que se esfregam,  casacos que se cruzam sobre o peito e, aqui e ali, sobrevive  ao frio um gesto de carinho.
Avanço ao encontro do mar. Ultrapasso o farol, fustigado agora pela chuva fina, nó e laço entre as portas do céu e da terra.

Desaguei assim, junto ao mar. As ondas cresceram, desde a última vez que aqui estive…grandes, com uma renda branca na ponta, fustigando areias e pedras , tapando o areal, quase escorraçando as últimas e mais resistentes esplanadas da Foz.
Fico-me por ali, a contar possíveis gaivotas, abandonada ao sonho.

O dia cresce, as horas acordam a tarde, que não tarda em chegar, e o Porto desnuda-se , por fim,  num fervilhar de vida. Do Molhe, olho a Avenida com as suas últimas árvores, brilhantes de chuva e vivas de vento, e começa a apetecer-me chegar, enfim, ao meu porto, à minha casa, à minha lareira, ao sofá onde me enrolo para melhor saborear a noite longa, o chocolate com leite e o desabafo da chuva sobre o meu telhado.
Há uma cor cinzenta, parda, em torno dos edifícios, e o horizonte torna-se indistinto e cada vez mais longínquo. A noite insinua já um convite manso. Pessoas regressam, como eu, apressadas e friorentas, a um ponto qualquer das suas vidas. Fecham-se os casulos de cartão, as portas de madeira, as janelas, os anúncios de néon.
Os gatos adormecem. Nem a lua permanece. É quase inverno.

O silêncio é uma voz trocada pelo vento e restam na cidade as sombras. E um ou outro sonho que a vela.
E o Porto, quase adormecido, aconchega-se a nós e volta a parecer mais nosso.

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