Entre as margens que se avistam sem se tocarem
um incêndio de luz transporta o rio para o centro e coisa nenhuma.
Sobe, da margem, uma súplica quieta da água a pedir um pouco de sede a
qualquer boca. Nos montes parece que nos nascem braços como
se quiséssemos abraçar os cumes num só fôlego e repousar no verde que
veste a encosta, túnica tecida para cobrir a nudez, toda a nudez que a
terra transporta e nos faz ter desejos de passar para além de tudo o que
é horizonte e longe.
Sigo pelo caminho medindo os passos, aqueles
que me faltam para atingir o orgasmo das águas. Como se o mar, ao longe,
fosse o palco para mil atores e eu, pano que destapa a cena e sobe
devagar, ávido de som e cor, quando nascem aplausos de todas as flores
que se debruçam só para me ver passar.
No silêncio de tudo um grito
de ave morta, o meu silêncio de como quem parte e regressa numa eterna
viagem pelo centro do cosmos que adormece em mim com um perfume de fim
de verão…

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