sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Na tua mão

Hoje trouxeste-me uma pedra. De um cinzento liso e lavado escondida no teu dedo anelar. Pelo tamanho, devia pesar quilos, mas nem essa loucura te cansava. Deste-ma ainda não tinhas entrado em casa. Segurei-a com cuidado, como se segura um sonho ou um rasto de asas ou uma pegada que não queremos deixar impressa na areia. Enquanto a segurava, a pedra diluiu-se em mar, esse mar de terra, de céu, de água que se acumula numa qualquer esquina do teu percurso diário e que tu pegaste como teu. Escorria agora lentamente da minha mão para a tua pele e ia deixando um rasto de sal entre mim e ti, onde um sol redondo se punha inocentemente com uma pergunta nos lábios. Quis responder ao incêndio que esse por de sol originou na porta do nosso corpo, enquanto as paredes ardiam, as cortinas desapareciam rapidamente e um monte de cinzas, cinzento liso e lavado, se formava de novo debaixo do teu dedo anular. E quando o fogo acabou com o que restava de sólido entre nós e o mar nos afogava rapidamente, fechei a porta e ficámos ambos pendurados no horizonte a fazermos promessas de uma eternidade que não é nossa, com a pedra e as cinzas emoldurando-nos as mãos. Ainda que o fogo e o mar nos tivessem já roubado as mãos e eu e tu fossemos apenas eu e tu.






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