Hoje
trouxeste-me uma pedra. De um cinzento liso e lavado escondida no teu
dedo anelar. Pelo tamanho, devia pesar quilos, mas nem essa loucura te
cansava. Deste-ma ainda não tinhas entrado em casa. Segurei-a com
cuidado, como se segura um sonho ou um
rasto de asas ou uma pegada que não queremos deixar impressa na areia.
Enquanto a segurava, a pedra diluiu-se em mar, esse mar de terra, de
céu, de água que se acumula numa qualquer esquina do teu percurso diário
e que tu pegaste como teu. Escorria agora lentamente da minha mão para a
tua pele e ia deixando um rasto de sal entre mim e ti, onde um sol
redondo se punha inocentemente com uma pergunta nos lábios. Quis
responder ao incêndio que esse por de sol originou na porta do nosso
corpo, enquanto as paredes ardiam, as cortinas desapareciam rapidamente e
um monte de cinzas, cinzento liso e lavado, se formava de novo debaixo
do teu dedo anular. E quando o fogo acabou com o que restava de sólido
entre nós e o mar nos afogava rapidamente, fechei a porta e ficámos
ambos pendurados no horizonte a fazermos promessas de uma eternidade que
não é nossa, com a pedra e as cinzas emoldurando-nos as mãos. Ainda que
o fogo e o mar nos tivessem já roubado as mãos e eu e tu fossemos
apenas eu e tu.

Sem comentários:
Enviar um comentário