sexta-feira, 3 de outubro de 2014
Regresso
Quando chegares lembra-me que dia é, a hora em que estamos e sobretudo porque estamos. Tirarei do armário a chávena mais bobita para um chá que nunca tenho em casa, e usaremos as chávenas vazias para saciar a sede que não virá. Estarei todos os dias à tua espera, sem qualquer palavra para te dizer porque esqueci todas as palavras dizíveis. Tenho apenas palavras na ponta dos dedos, os mesmos dedos que, numa esquizofrenia estranha, agarram a caneta para riscar qualquer parede. Houve um tempo em que a mudez também se apoderou de mim, e os pássaros cantavam pela minha boca, de repente bico, de repente asa, de repente ar. Nunca soube porque não voltaste nessa altura, em que as nuvens eram a minha estação de comboio favorita. Agora, sento-me diariamente no chão, em frente à porta e pouso a face entre os braços, como se fosse um cão à espera do dono que o deixou na estrada mais longa do nada. Reparo em todos os pormenores, ladro ou respiro o silêncio, sou mais uma vez um animal dentro deste corpo humano que desconheço. Ouço barulhos lá em baixo, na entrada do prédio que para mim funciona sempre apenas como saída. Ouço passos, mas sei que não são os teus, a não ser que hoje tenhas resolvido travestir-te de salto alto. À minha volta agitam-se as paredes, o casaco bamboleante no bengaleiro e os risos que se entranharam no intervalo das tijoleiras do chão. Quando chegares provavelmente já não estarei aqui sentada a coçar uma presumível pulga atrás da orelha. Talvez tenha de novo levantado voo e me encontre parada na ponta de um rochedo com os olhos transparentes de areia e sal. Deixo a fechadura liberta. Se chegares, repara no chão à entrada da porta. Dois passos para a direita, à frente da porta de vidro desfeita em cacos, o chão afunda-se como um colchão. Cansou-se do meu peso de anos de cão ali deitada, orelhas baixas, enquanto não te ouvia. A casa é tua. Não vou voltar.
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