quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Não ter, não haver

Saber que tenho tudo por fazer. Que a minha vida foi, até hoje, deixar tudo por fazer. Não vale a pena abrir armários, as asas estão cheias de pó, as roupas gastas por substituir e, num canto, amontoadas, todas as palavras que não disse por preguiça ou medo.
Por meu, tenho o sofá onde perco as horas e os meus poucos pensamentos que ainda se mantêm ágeis e fieis. Queres vir morar no meu sofá? Perguntei-te (ou não, já nem sei) vezes sem conta… Eu sei, não cabemos os dois neste espaço de molas, ácaros e pano. Talvez nem seja um espaço que se possa partilhar, mas é o único que tenho para te oferecer. Lá fora há sol e chuva, gente e gatos que se roçam pelas bermas das calçadas. Há flores plasmadas no asfalto, um céu a correr para fugir do horizonte onde tudo acaba e começa. Lá fora há uma vida nada semelhante à que criei para nós, em cima do meu sofá. Aqui há o não haver, o não ter. O movimento por cá é nosso, damos mãos, colamos palavras, roemos as músicas, e atiramos o silêncio para a carpete vermelha. Para ti, dizes, é pouco, para mim, pelo contrário, nada acontecer será sempre o máximo que nos pode acontecer. O tornarmo-nos viscerais. O sermos impróprios. E bebermos chá nos pratos da sopa.

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