Saber que tenho tudo por fazer. Que a minha vida foi, até hoje, deixar
tudo por fazer. Não vale a pena abrir armários, as asas estão cheias de
pó, as roupas gastas por substituir e, num canto, amontoadas, todas as
palavras que não disse por preguiça ou medo.
Por meu, tenho o sofá
onde perco as horas e os meus poucos pensamentos que ainda se mantêm
ágeis e fieis. Queres vir morar no meu sofá? Perguntei-te (ou não, já
nem sei) vezes sem conta… Eu sei, não cabemos os dois neste
espaço de molas, ácaros e pano. Talvez nem seja um espaço que se possa
partilhar, mas é o único que tenho para te oferecer. Lá fora há sol e
chuva, gente e gatos que se roçam pelas bermas das calçadas. Há flores
plasmadas no asfalto, um céu a correr para fugir do horizonte onde tudo
acaba e começa. Lá fora há uma vida nada semelhante à que criei para
nós, em cima do meu sofá. Aqui há o não haver, o não ter. O movimento
por cá é nosso, damos mãos, colamos palavras, roemos as músicas, e
atiramos o silêncio para a carpete vermelha. Para ti, dizes, é pouco,
para mim, pelo contrário, nada acontecer será sempre o máximo que nos
pode acontecer. O tornarmo-nos viscerais. O sermos impróprios. E
bebermos chá nos pratos da sopa.
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