quinta-feira, 2 de outubro de 2014
A casa amarela
Era uma casa, casa. Daquelas em que as almas se unem mal a porta se abre e o silêncio fala por qualquer palavra Era velha, as teias de aranha arrastavam-se pelos cantos, a humidade tomava conta de alguns espaços. A lareira grande, na cozinha, deixava-nos sentar no seu interior e conversar, enquanto os gatos se aninhavam entre as cinzas e o cão se protegia debaixo de uma cadeira. Sempre a mesma.
À volta da casa havia um jardim que era mais um amontoado de coisas, cada coisa com o seu significado e lugar vagabundo, canteiros, muitos canteiros, com flores que eram frutos de três mãos diferentes que as cultivavam e de outras tantas que as regavam. Eram flores bem amadas, como tudo o resto que respirava naquele espaço. De vez em quando as galinhas soltavam-se e andavam à nossa volta a tentar expiar-nos as conversas, os desabafos e os segredos. Havia sempre batatas escondidas na adega, e uma árvore com um nome especial. Nada estava ali por acaso, como se tudo fizesse parte de um plano primeiro e único que tinha a ver com a harmonia de um caos provocado. Mais além, a quinta, o pomar, a terra com os alhos que cresciam à custa de algumas rezas, as abóboras enormes e a laranjeira que nos exigia uma subida que eu nunca arriscava.
Parecia que o que ali faltava, não faltava. Que ali estava tudo o que era necessário à existência de quem lá entrasse. Havia um saco de peúgas velhas, desirmanadas, que dizíamos ser para a nossa velhice. Havia a velha aranha na cozinha do forno que sempre me assustava, uma coleção de cristos partidos no quarto que um dia preparamos gritando um nome numa oração.
Era uma casa, casa. Uma casa Lar.
Um dia, perdi o caminho para lá. Lembrava-me de tudo, sobretudo da felicidade de abrir as portadas, quando acordava, de manhã. Lembrava-me de tudo, todos os dias. E não percebia por que razão tinha esquecido a estrada.
Mas agora soube que a casa tem uma janela aberta por onde posso entrar. Sei que tu estás lá, e, quem sabe, a teimosa aranha, as galinhas curiosas, a cadela velhinha, os gatos de passagem. E voltei a lembrar-me da estrada.
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